Executivas de tênis e calça jeans
Por Lilian Diniz Leopoldino
Durante muito tempo, disseram às mulheres como uma executiva deveria se vestir, falar, sentar, liderar. Disseram que autoridade vinha acompanhada de salto alto, postura rígida e voz moderada. Disseram também que, para ocupar espaços de poder, era preciso se encaixar em moldes já estabelecidos e, quase sempre, desenhados por homens.
Mas e se a nova geração de líderes vier de tênis e calça jeans?
O título não é sobre qualquer vestimenta. É sobre liberdade.
É sobre autenticidade. É sobre atualização.
Executivas de tênis representam mulheres que não querem mais performar um papel, querem exercer sua própria potência. Mulheres que entendem que competência não está no salto, mas na consistência.
E se quiserem usar salto? Que usem. Mas que seja escolha, nunca imposição.
O símbolo de correr descalça
Em 1973, no Quênia, uma jovem chamada Sabrina Chebichi entrou para a história. Aos 14 anos, competiu e venceu uma maratona descalça, usando apenas seu uniforme escolar, um vestido simples. Não tinha tênis tecnológico, não tinha estrutura de elite, não tinha autorização simbólica para estar ali. Mas correu. Mas venceu.
Num ambiente dominado por homens, sem equipamentos sofisticados, ela não apenas cruzou a linha de chegada, ela quebrou um padrão.
A história de Sabrina é um lembrete pra mim e pra você de que às vezes, o que nos dizem que é indispensável para vencer não passa de construção social. Muitas mulheres ainda acreditam que precisam de mais certificados, mais validações, mais aprovações para se sentirem prontas. Quando, na verdade, já estão.
A síndrome da impostora: o salto invisível que pesa
A chamada síndrome da impostora não é falta de competência, é excesso de cobrança. É aquela voz interna que pergunta:
“Será que eu mereço estar aqui?”
“Será que vão perceber que eu não sou tão boa quanto pensam?”
Enquanto homens, estatisticamente, tendem a se candidatar a uma vaga quando cumprem parte dos requisitos, muitas mulheres só se inscrevem quando cumprem quase todos. É como se precisássemos estar sempre “prontas demais” para dar o próximo passo.
Mas ninguém perguntou a Sabrina se ela tinha o equipamento ideal. Ela simplesmente correu.
Executivas de tênis e calça jeans são aquelas que decidiram correr mesmo assim. Mesmo com medo. Mesmo com dúvidas. Mesmo ouvindo o eco da autossabotagem.
Quebrar padrões também é estratégia
A quebra de padrões não é rebeldia é inteligência adaptativa.

O mundo corporativo mudou. Liderança hoje exige empatia, colaboração, escuta ativa, visão sistêmica. E muitas dessas competências, historicamente associadas ao feminino, são exatamente as que sustentam organizações mais inovadoras e humanas.
Ser uma executiva atual não é parecer jovem ou infantilizar uma imagem, é estar aberta ao novo. É atualizar repertório, linguagem, mentalidade. É entender tecnologia, ESG, diversidade, cultura organizacional. É liderar com firmeza e sensibilidade.
Mulheres que entendem que autoridade não está na estética, está na essência. Que não precisam endurecer para serem respeitadas, nem suavizar para serem aceitas.
São mulheres que, como Sabrina, decidiram correr do jeito que estavam. E vencer do jeito que são.
Porque no fim das contas, não é sobre o que calçamos.
É sobre os caminhos que escolhemos percorrer.
