Quando a imagem que construímos começa a nos limitar

Por Lia Santamaria Flório

Existe uma armadilha silenciosa em ser reconhecida por aquilo que fazemos bem.

Quanto mais nos destacamos por determinadas características, mais as pessoas passam a esperar que continuemos exatamente daquele jeito.

A profissional que resolve tudo continua recebendo problemas para resolver. A que nunca diz não se torna a primeira opção para qualquer demanda. A que sempre entrega acaba sendo lembrada pela execução, mesmo quando já está preparada para participar das decisões.

Aos poucos, aquilo que construiu nossa reputação pode começar a limitar nosso crescimento.

E existe uma ironia nisso: podemos nos tornar prisioneiras da imagem que nós mesmas ajudamos a construir.

O sucesso também pode criar rótulos

Quando pensamos em imagem pessoal, normalmente associamos o assunto à maneira como nos apresentamos. Mas existe uma dimensão muito mais profunda: a identidade que construímos na percepção das outras pessoas.

Somos reconhecidas por nossos comportamentos, decisões, atitudes e pela forma como reagimos às situações.

Com o tempo, essas percepções se consolidam.

No ambiente profissional, isso acontece o tempo todo. Uma mulher pode construir uma carreira sendo reconhecida pela organização, pela capacidade de execução e pela disponibilidade. São qualidades importantes, que provavelmente contribuíram para suas conquistas.

Mas imagine que, depois de alguns anos, ela queira assumir uma posição mais estratégica.

Talvez descubra que as pessoas continuam procurando por ela apenas quando precisam de alguém para executar.

Não necessariamente porque duvidam de sua capacidade, mas porque se acostumaram a enxergá-la de determinada maneira.

O mesmo acontece com a profissional que deseja empreender, com a líder que decide mudar de área ou com a mulher que percebe que suas prioridades já não são as mesmas.

A reputação que construímos pode abrir portas. Mas também pode fazer com que algumas pessoas demorem a perceber que estamos prontas para atravessar outras.

Nem sempre evoluímos na mesma velocidade da nossa imagem

Ao longo da minha trajetória em Marketing, aprendi que marcas precisam evoluir.

Uma marca que foi relevante em determinado momento pode perder conexão com seu público quando deixa de acompanhar as transformações do mercado, dos comportamentos e das necessidades das pessoas.

Mas existe uma questão importante: mudar uma marca não significa abandonar sua essência.

Significa reconhecer o que precisa permanecer e o que já não representa sua realidade.

Com a nossa trajetória, acontece algo semelhante.

A mulher que começou a carreira buscando espaço e aprovação pode, anos depois, ter repertório suficiente para liderar decisões importantes. Aquela que sempre se orgulhou de estar disponível para todos pode perceber que precisa estabelecer limites.

A profissional que durante muito tempo se apresentou a partir de um cargo pode descobrir que sua identidade é muito maior do que a função que ocupa.

Nós evoluímos. Nossos interesses mudam. Nossa maneira de enxergar o mundo se transforma.

Mas nem sempre atualizamos a forma como nos posicionamos.

E, em alguns momentos, continuamos sustentando uma imagem que já não corresponde à nossa realidade.

O preço de continuar sendo quem esperam que sejamos

Mudar a percepção que os outros têm sobre nós exige mais do que comunicar uma nova intenção.

Exige modificar comportamentos que, durante muito tempo, foram recompensados.

A profissional conhecida por estar sempre disponível talvez precise começar a dizer não. Aquela que sempre assumiu a execução pode precisar delegar. A mulher que evitava conflitos talvez tenha de aprender a sustentar decisões que não agradam a todos.

E isso nem sempre é confortável.

Porque, quando mudamos, também alteramos a dinâmica das relações.

Pessoas que se beneficiavam da nossa disponibilidade podem estranhar nossos limites. Colegas acostumados a nos enxergar de determinada maneira podem demorar a reconhecer uma nova postura.

Há ainda um desafio interno: abrir mão de características pelas quais fomos elogiadas pode provocar insegurança.

Se sempre fui reconhecida por resolver tudo, quem serei quando deixar de assumir todos os problemas?

Se construí minha identidade em torno de uma carreira, como vou me apresentar quando decidir seguir outro caminho?

Essas perguntas revelam que a transformação da imagem não acontece apenas na percepção dos outros. Ela começa na maneira como passamos a nos enxergar.

Não basta anunciar uma mudança. É preciso vivê-la.

No Marketing, sabemos que uma marca não se reposiciona apenas com uma nova identidade visual ou uma campanha bem elaborada.

O reposicionamento precisa encontrar correspondência na experiência que ela entrega.

Com as pessoas, o princípio é semelhante.

Não adianta querer ser reconhecida como uma líder estratégica se continuamos assumindo todas as tarefas operacionais e não criamos espaço para contribuir com decisões.

Não basta desejar mais autonomia se seguimos esperando aprovação para cada escolha.

E não faz sentido afirmar que nossas prioridades mudaram se nossa rotina continua organizada exclusivamente em torno das expectativas dos outros.

A imagem que construímos é resultado, em grande parte, daquilo que repetimos.

Por isso, transformá-la exige consistência.

É necessário rever escolhas, estabelecer novos limites, desenvolver competências e aceitar que algumas pessoas talvez prefiram a versão anterior de nós mesmas.

Nem todo mundo vai acompanhar nossa evolução na mesma velocidade. E isso não deveria nos impedir de continuar.

Você ainda se reconhece na imagem que construiu?

Acredito que uma das perguntas mais importantes que podemos fazer em determinados momentos da vida é se a maneira como somos reconhecidas ainda corresponde à mulher que desejamos ser.

Não porque precisamos nos reinventar o tempo inteiro.

Mas porque permanecer fiel a nós mesmas também significa reconhecer quando mudamos.

Às vezes, o próximo passo da carreira exige deixar de ser a profissional que centraliza tudo. Em outros momentos, exige abandonar a necessidade de agradar, rever prioridades ou admitir que um caminho que já fez sentido deixou de fazer.

Existe maturidade em reconhecer essas mudanças.

E existe coragem em permitir que nossa imagem acompanhe essa evolução, mesmo quando isso significa contrariar expectativas.

Afinal, construir uma reputação é importante. Mas não podemos permitir que ela se transforme em uma obrigação de permanecer iguais.

A imagem que você construiu conta a história de quem você foi até aqui. Ela não precisa determinar quem você poderá ser daqui para a frente.

Talvez o verdadeiro desafio não seja fazer com que as pessoas enxerguem uma nova versão de nós.

Talvez seja ter coragem de deixar de representar uma versão que já não nos pertence.

Sou Lia Santamaria Flório, profissional de Marketing e Comunicação, com mais de 16 anos de experiência em branding, gestão de marcas, planejamento estratégico, comunicação e liderança.

  • Head de Marketing da VOX rede de escolas de comunicação e oratória do Brasil.
  • Idealizadora do SUPERE-SE, um projeto desenvolvimento humano e profissional.
  • Mentora voluntária do Nós por Elas, do Instituto Vasselo Goldoni (IVG),

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